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24/02/09 - Terça-feira postado na categoria Crônica Definitivamente, ninguém foge do carnaval. Fui para o interior sem contar a viv' alma para onde ia, mas parece que tava todo mundo lá, pelo menos parecia todo mundo, fazendo a mesma coisa, pulando, pulando, pulando, e era todo mundo porque a cabeça inchou na proporção exata do mundo todo, portanto... Antes, a surpresa foi ouvir de dez entre dez pessoas para quem perguntei se ia pular ou descansar no carnaval, que "Não, não vou pular, vou descansar, dormir atééé...", no que me identifiquei de pronto, só que a proporção dos prontos para dormir para os prontos para ficar acordados até cair não me parece justa, a esta altura. Ou isso ou todo mundo mentiu pra mim. Ou será que eu é que menti?! Posso até dizer que a coisa não é bem assim, não é que eu estava fugindo do carnaval, estava fugindo é da agitação, porque parte do que se quer no carnaval, como a alegria, eu continuei e continuo querendo, só que de outro jeito, sem plumas e sem porre, em outras palavras, carnaval, sim, folia, não, eis o meu lema sempre nessas ocasiões, o que era para ser. Era. Em tempos ligados, plugados, conectados, atados em todas as direções da moderna era dos novos achados (por todos) e perdidos (em si), fugir é impossível. Eis o que há. Quer dizer, todo mundo tem direito ao seu carnaval, a questão é que o meu não quis muito saber de mim, ou, se quis, capitulou na primeira batida e no primeiro grito da primeira hora do primeiro enredo, sem primeiro falar comigo. Resta que neste carnaval fui engolido não pela quietude do silêncio que compus em sonho antes, mas pela solidão dos pisoteados pela balbúrdia dos corpos despregados do chão depois que tudo se mostrou inevitável. Não entendeu? Explico: eu queria descansar de todo mundo; no final das contas, todo mundo se esbaldou em meu querer. Ô-lê-lê, ô-lá-lá.
15/02/09 - Domingo postado na categoria Crônica Estava eu calmamente na Revistaria Globo, semana passada, quando entrou uma mulher agitada, procurando jornais. - Qual jornal a senhora quer? - perguntou uma atendente. Eu ali, ouvindo como quem não quer nada, curioso para saber qual ela ia pedir. - O mais grosso - ela então falou. O mais grosso? Como assim? - Um grande, de muitas páginas. A atendente ficou quieta, talvez tentando entender o que estava acontecendo. Eu? Eu também não estava entendendo nada! - Eu quero um jornal grosso porque estou pintando a minha casa e preciso cobrir os vidros. Quanto mais página, melhor. Yes! Ela não queria o melhor jornal, nem o pior, nem parece ter opinão sobre questões menores como essa, ela nem foi direto aos jornais, muito menos deu nomes de jornais que porventura pudesse conhecer. Nada disso. Ela queria papéis, apenas isso, papéis para cobrir os vidros, e estava disposta a pagar por isso, pagar o preço de um exemplar do dia. A atendente, já dominando a situação, mostrou os que tinha, falou que todos eram "grossos" e, por fim, sugeriu: - Por que a senhora não leva dois, assim terá papel suficiente... E a mulher, que não é boba nem nada, naturalmente aceitou. Na hora! Eu? Eu continuo lá. Parado. Inútil. Quem for à revistaria vai me ver, uma estátua de tinta. E em nome da verdade dos fatos, devo avisar a quem for lá: não há nada para ler, inabalável que estou na minha incomunicabilidade jornalística, por assim dizer. A tinta é o que restou dos jornais inúteis comprados à vista. Sim, à vista de todos, de todo o mundo!!
31/12/08 - Quarta-feira postado na categoria Crônica Eu e Jesus somos muito amigos. Ele não se importa, por exemplo, que diga "eu e Jesus somos muito amigos". "Se fosse eu falando, diria 'eu e o Vassil somos muito amigos'", explica ele, com ar natural de quem vive nas alturas e sabe viver lá. "Não mereço tanto, amigo", costumo falar, esforçando-me para não parecer irônico (ah, essa humana mania de grandeza!). Porque é sincero. Não mereço vir antes de ninguém, quanto mais de quem estamos falando. Falo isso para ele, com ar compungido de quem vive ao rés do chão e sabe como é viver aqui. "Meu grande amigo, atente para o sinal dos tempos. Se eu fui enviado para cá, foi porque o Pai Nosso entende que você, inclusive, vem em primeiro lugar em seu coração. E Ele está certo, sempre está?", insiste Jesus, meu amigo, com toda calma possível só a quem não é deste mundo - quer dizer, possível só a quem está além deste mundo, como ele. "Ou você acha que não, que Ele está errado?" Ele fala com cara de quem é, sim, deste mundo, me olhando deste lado. Claro que ele está muito acima dessas humanidades, mas imagino que foi irresistível a tirada, porque ser cruel, porém com carinho, muitas vezes é inevitável. Se levantam a bola, como não chutar? Eu entendo, Jesus já esteve aqui. Sabe o que faz. Eu e ele conversamos muito. Há décadas ele tenta me fazer entender certas coisas. Não entendo quase nada, mas não desisto; ele, muito menos. Fosse eu, já teria me deixado falando sozinho faz tempo. Tropeçando daqui e dali, vou seguindo. E ele insiste, persiste, suspira, resiste, dá de ombros (ou de asas) quando ignoro por completo conselhos seus, e segue também seu caminho.
14/12/08 - Domingo postado na categoria Geral Primeiro, aos fatos. Na sexta-feira, saiu esta nota na coluna Café da Manhã, do Diário da Manhã: O bilhete de Marconi a Agripino Maia Durante seu discurso na última quinta-feira, em sessão que homenageou Marconi e Valéria Perillo, na Assembléia Legislativa, o senador José Agripino Maia (DEM) recebeu um bilhetinho. A mensagem, escrita pelo próprio senador Marconi Perillo, pedia a ele para que não fizesse nenhuma menção negativa ao governo de Alcides Rodrigues. Após ler o bilhete, Agripino Maia diminuiu o tom das críticas que começavam a se aflorar. *** Ontem, domingo, outra nota, visivelmente em resposta à anterior: Teatro Após lera a coluna Café da Manhã deste sábado, o presidente regional do PP, Sérgio Caiado, refletiu que, no mundo político, Agripino Maia é conhecido por colocar seus serviços à mercê de quem ofereça mais. "E foi, por isto, que ele veio a Goiás servir de cabo-de-chicote para quem não tem coragem de mostrar a face e criticar o governo em campo aberto." *** Incrível a agilidade de Marconi Perillo, que percebeu que Agripino batia no governador, teve tempo de escrever um bilhete e mandar para ele, que leu e diminuiu o tom do discurso. Bem... A tal história: a esperteza come o esperto. Por que Agripino viria a Goiás falar mal do governador? A reposta de Sérgio Caiado foi no estilo de quem sabe que jabuti não sobe em árvore - alguém o cologou lá. E mostra como anda o clima na base aliada... Aliás, tema do post anterior.... E do próximo...
18/11/08 - Terça-feira postado na categoria Poesia Anti-filósofo Não levo mais em mim *** Tenho todas as respostas que procuro Tenho todas as respostas que procuro.
04/09/08 - Quinta-feira postado na categoria Crônica Chega um momento em campanha, para quem está envolvido diretamente com ela, em que, diria Drummond, se diz: "Meu Deus!" É um tempo de depuração, de certa forma. Tempo em que os que avistam a possibilidade de vitória no horizonte vibram, extasiados. Tempo em que os que vêem a derrota pela frente, sofrem, gritam, esperneiam, vêem algozes por todos os lados. Os que comemoram, muitas vezes cometem excessos. Por exemplo, ironizam os adversários, tripudiam. Não devia ser assim, mas é assim que acontece, por conta de muitos fatores, entre eles a própria alegria da vitória sobre o adversário. Os que vêem a derrota a poucos palmos dos olhos, não se conformam. Sentem-se como se o mundo conspirasse contra, como se fosse uma afronta do destino a escolha do outro para vencedor. É natural que a paixão eleitoral, a paixão de campanha, produza este tipo de sentimento. Quem já participou de uma campanha sabe como é o envolvimento, como é inclusive necessário este envolvimento por parte de parcela expressiva do grupo, e como é compreensível que isso aconteça mesmo entre aqueles que deveriam ser mais racionais que emocionais, para resguardar o próprio candidato de ser atropelado não pelo adversário, mas pela ansiedade de sua equipe. Uma vítima contumaz nessas ocasiões é a imprensa. Todos os veículos são patrulhados o tempo inteiro, e na reta final, para quem está perdendo, não sobra um para receber um elogio, do tipo "foi imparcial", "cumpriu seu papel", "deu espaços a todos", e, principalmente, "neste e naquele veículo poderíamos até ter tido mais e melhor espaço, mas faltou uma ação nossa; faltou atender aos constantes pedidos de entrevista, negados pela nossa arrogância de achar que não precisaríamos; faltou, de nossa parte, ser menos apaixonados e compreender que jornalista pergunta e candidato responde e que isso é a ordem natural da imprensa viva". A conspiração contra quem perde é real, na cabeça de quem já se dá por vencido, ou por quem, depois do resultado das urnas, precisa encontrar uma desculpa para a sua derrota e, em vez de olhar seus erros nos olhos, prefere apontar nos outros os defeitos que estão em si mesmos. Tenho um amigo que diz que candidato ou colaborador que, em determinado momento da campanha, não avermelha os olhos, com o sangue quase saltando para fora, não é candidato a vencedor. É candidato. É preciso entender, portanto, as paixões de campanha. É preciso saber que isso passa. Não é amor duradouro, porque depois os sentimentos tendem a voltar ao devido lugar. E, se não voltam, é porque a paixão virou doença. Muitas vezes, doença incurável. E aí... Meu Deus! Meus amigos e minha amigas, leiamos mais Drummond. Ele sabe das coisas, políticas ou não. Porque, afinal, isso tudo é tão demasiadamente humano, que, ou se faz filosofia, ou poesia. Ou as duas coisas, mas com rima.
29/08/08 - Sexta-feira postado na categoria Poesia Salomão Sousa é felizmente poeta. Salomão Sousa é o meu poeta preferido. Mestre, amigo, Salomão faz versos com a ponta dos dedos. Toca a mente, toca o coração, ensina, emociona, toca como violeiro, os olhos. Eis alguns versos, lá de seu blog (o endereço está aí ao lado; para ir direto ao poema, cliqu AQUI). Mais que ler, ouça. *** Sempre que olha para as mãos Pediu-me para segurá-la Não pede o gesto que o aqueça Para a paz do inimigo
23/08/08 - Sábado postado na categoria Crônica Dormi a noite passada no coração do meu filho. Logo eu, que nunca tive dúvida de que de alguma forma estava ali, tinha um lugarzinho reservado só pra mim em meio aos batimentos vitais que se originaram também dos meus, só não sabia qual e tamanho físico e espiritual; logo eu, que por isso e por tantas outras razões nem deveria me surpreender mais com coisas assim... Bem, aconteceu. Coisa de pai, inseguro, pleno, incerto, confiante, desesperado noite e dia por saber que a gente é, para os filhos, inevitavelmente herói e bandido, uma vez que é da natureza humana, a nossa, a imperfeição, ainda que o Pai Maior, espelho dos espelhos, não o seja - porque, como pai, como Ele poderia negar aos filhos amados o livre arbítrio? Pois o meu espaço no coração do meu filho foi por uma noite do tamanho de uma barraca. E, acreditem, não há nada maior no mundo - nem em outros mundos, posso arriscar com a autoridade de um pai que andou a noite inteira à velocidade do pensamento para rever seus próprios tempos de menino amando absolutamente o pai, em momentos tão e só nossos. Dormimos no chão do colégio Ávila, no centro agitado de uma cidade vertical sem limites para a dura realidade. Só que o chão não era duro, o chão era de estrelas (por mais corriqueira que seja a imagem), o que talvez explique que um curioso garotinho falasse alto, de dentro da barraca vizinha, para o pai ouvir, imagino que sentindo medo e segurança ao mesmo tempo: "Paaaaii, será que aqui tem alienígena?" Tantos pais, tantos filhos, tantas vozes dispostas ao amor, e, iluminada seja a moderna humanidade, tantos rostos e peitos e mãos e braços e ansiedades tão, mas tão dispostos ao derramamento incondicional desse amor, que nem dá para dimensionar, e que trazem junto o súbito impacto da saudade dos dias em que meus avós paravam o mundo para fazer rapadura... ou do tempo em que tudo ficava reduzido à espera de uma pamonha intraduzível boiando no tempero original da família... ou ainda das horas intermináveis em que se tinha gana de avançar no forno da padaria para tomar de surpresa aquele pudim que, pela misericórdia Divina, ninguém, até hoje, consegue fazer igual, crime inafiançável para toda a eternidade pelo qual meu avô certamente está respondendo lá para Deus! Eu, que tenho tantas histórias para contar, tenho a felicidade de anunciar a todos que meu filho agora também tem uma história para contar. Não é pouca coisa nesta altura da vida em que o ato de produzir uma pipa aos olhos dos filhos torna-se um acontecimento espetacular, em vez de ser algo do dia-a-dia, como era para nós muitos anos atrás, algo que saía de nossos dedos crianças com a naturalidade de uma pedra que é lançada no rio para tocar uma, duas, três, quantas vezes quer a nossa imaginação. Não sei o que os outros pais acharam do 'Acampáivila', a noite dos pais no Ávila. E eu nem vou dizer que achei lá o meu filho, porque ele, graças ao carinho e ao amor que meus pais me transmitiram, graças ao que eles me ensinaram com palavras e atos, e principalmente graças ao bom Deus que ele também me ensinaram a amar, encontro todos os dias, todas as horas, em todos os meus gestos reais e imaginários. Tenho três filhos, e sou daqueles para quem isso significa ter tudo na vida. E o amor deles encontro todos os dias intacto, inabalável. O que eu encontrei mesmo foi outro menino, um que em alguns momentos se ausenta, vai por aí, perdido nessas ruas de uma forma que não se perdia quando entrava pelo mato, pelo cerrado, em busca de pequi, guariroba, passarinho, jabuticaba, ingá, ou em busca de nada porque tinha tudo, um que não mostrava dúvida de onde queria chegar na vida: a um dia de felicidade por dia - nem mais, nem menos. Eu me reencontrei. E foi bom. E foi espetacular. E foi único. Na quadra do Ávila, no chão do amor do meu filho, na memória que me cobriu por algumas horas, no conforto de estar principalmente acomodado em outro coração, o de Deus, eu me vi. Agora mesmo, escrevo e soluço, com o peito agredido pela alegria. Não dá pra traduzir. O que a gente faz da vida é o que a vida faz da gente. Quer dizer: o pai é o filho e é o espírito santo. Depende do pai e do filho que a gente é.
11/03/08 - Terça-feira postado na categoria Conto Entrei em minha sala de estudo ao meio-dia de uma quarta-feira, quatro de novembro de 1989, pronto para escrever mais uma dessas narrativas do interessante. Fabulosamente. Estava tudo pronto na minha cabeça. Era a história de Débora que, um dia, em 1991, saía de casa para morrer como vi, espetacularmente, alguns minutos depois de mim, como eu previa. Débora tivera um dia triste. Em pé, no quarto, olhando o espelho da parede; deitada, nua, olhando o espelho do teto. Lia a história de alguém sem sombra, e, por isso, uma hora e outra procurava pela sua. Tinha os cabelos despenteados, a pele sem maquiagem, o nariz claro, as orelhas pequenas. Abrir e fechar os olhos eram ações que, às vezes, se confundiam. Deitar de bruços era como deitar de costas, nada mais. E se alguém, como eu, ficasse muito tempo admirando-a, tentando descobrir todos os matizes da tristeza em tão singela feiúra, acabaria certamente por dizer tolices como deitar de bruços era como deitar de costas. Nada mais. Foi então que, inesperadamente, como se espiritada por uma boa ou por uma má idéia, se levantou da cama, quebrou todos os móveis do quarto e gritou que, se a única maneira de ser espetacular, original, lembrada, ficara no passado, perdia tempo, não seria nunca encontrada ali. E gritou mais alto que o rádio, espatifou o telhado, saltou pela janela e foi morrer na calçada vazia e suja de passos sem demora. "Não dá pra viver sem voltar!", disse. Vinte e quatro horas antes, em 1987, nascia F. Fernandes de um parto complicado, cheio de erros humano s e incidentes inexplicáveis. Chorou custosamente, feriu-se no umbigo do mundo e foi direto para a incubadora do hospital. No outro dia os jornais deram a notícia enfeitada do nascimento da filha do Dr. Fernandes, empresário de refinado gosto, intelectual com pose de literato. Porém no outro dia, em 1989 ou 90, o mesmo jornal, juntamente com a notícia da morte espetacular de Débora, desmentiu a notinha social, explicando que a criança mal teve 24 minutos de vida, vindo a falecer logo, para desconsolo dos desafortunados pais. Fim da história, que, já deve ter percebido, envolve você. Sim, você, que vai até o fim e depois. De minha parte digo que amei Débora e F. Fernandes desde a primeira vez em que as vi. Penso nelas todos os dias, precisava contar a alguém. Embora tenham vivido apenas por instantes, estiveram comigo o tempo todo, desde quando as imaginei. E não vão mais embora, agora que foram lidas.
Publicado na Tribuna do Planalto em 9.03.2008. Para ler no jornal, clique AQUI.)
postado na categoria Crônica Ora, viva! Agora faço parte desta imensa comunidade dos atingidos pela crise aérea brasileira. Sim, muito obrigado, muito obrigado pelos cumprimentos, quero agradecer a todos, em especial minha mãe e meu pai, que me deram a vida, porque, sem ela, eu não teria chegado aqui, não poderia jamais presenciar o caos, e senti-lo na pele, o que é o mais importante. Fui de Goiânia a Palmas e, em menos de 48 horas (claro, poderia ter sido pior), passei mais tempo temendo o aeroporto e esperando, esperando, esperando, esperando, depois fazendo troca não prevista de aeronave, novamente esperando, esperando, caindo em uma conexão sem fim, para mais espera, espera, tanta espera, que, se você se cansou lendo essa repetição interminável de palavras, imagine eu, que passei por tudo e, em vez de chegar com o sol em casa, como previsto, fui guiado enfim pela lua alta que, ao que vi, acabou enfarada de tanto que a olhei em súplica inútil, pedindo pelamordeDeusmeleveembora, da mesma forma que você deve estar dizendo pelamordeDeus termine logo esta frase, no que tem razão, portanto, para terminar, e retomando o fio da meada, quero dizer que passei mais tempo temendo e esperando do que voando e trabalhando, como sói acontecer em civilizações mais avançadas. E lembrar que foi um brasileiro, Santos Dumont, que inventou o avião... Foi de doer. Eu não estava sozinho, claro. Sebastião Barbosa, o diretor-presidente da Tribuna do Planalto, estava junto. Ele e mais um caminhão, digo, um avião de gente. Mas Tião não conta. Ele tem tanta paciência, mas tanta, que seria capaz de emprestar um pouco a Jó o que Jó mais teve, e a fundo perdido, sem qualquer prejuízo ao seu juízo. Foi por causa do Tião que meus olhos horrorizados também se divertiram. Do Tião e do Ruimar, o cabeleireiro das estrelas. Ruimar tinha ido à capital tocantinense convidado por Geninho, técnico do Atlético Mineiro, para ver o jogo do Atlético X Palmas, na noite anterior. Jogo que terminou simplesmente em 7 a 0 para o visitante. Eu vi. Eu também estava lá. Ruimar é do time do Tião: a paciência em pessoa (parênteses: ainda bem, né, porque já imaginou um cabeleireiro neurótico!?). Pois veja: os dois lá, "de boa", como diriam meus antenados filhos, e eu... Bem, eu sobrevivendo. Por fim, rindo para não chorar. Quase uma hora para sair, conexão em Brasília, viagem ao destino depois de troca inesperada de aeronave. Dia seguinte: meia hora de fila para check in, mais de uma hora de atraso para decolar, em Brasília outra troca inesperada de aeronave, com longa espera sem qualquer tipo de notícia de nada no aeroporto, até uma alma bondosa ponderar que o problema era - bem, devia ser - a chuva forte que caía em Goiânia. Para sua informação, não havia moça no guichê de informações da empresa aérea. Foi preciso uma mulher grávida apelar ao balcão da Infraero para que a empresa fosse acionada e, enfim, desse o ar da graça. Deu. Deu e com direito a um show de malabarismo. Acompanhe desde o início: nosso vôo original de volta era Palmas-Brasília-Goiânia. Este mesmo vôo seguiria para São Paulo. E não estava prevista troca de aeronave. Pois em Brasília tivemos de descer para pegar outro avião. Foi quando esperamos um longo tempo sem notícia de nada. Quando a grávida entrou na história e a empresa mostrou serviço, o mais inesperado: a nova aeronave que nos levaria para Goiânia era, vejam só, a antiga, aquela, a que nos trouxera de Palmas. O que aconteceu: essa aeronave deveria ter ido Brasília-Recife direto. Nós iríamos em outra, que tomaria então o destino de São Paulo. Ocorre que, por razões que ninguém nunca explicou, fomos colocados com os passageiros para Recife, e aqueles que iam para São Paulo, coitados, ficaram a ver navios, quer dizer, tiveram de dormir na capital federal, certamente porque não havia aeronave disponível. Ou será por outro motivo? Bem, sei lá... Só sei que, se não vi a reação dos passageiros que ficaram, vi a de uma recifense absolutamente contrariada. Além de o vôo estar atrasado, ainda tinha de ir para essa Goiânia. Dizer o quê? Desrespeito? Com certeza, e completo. Me senti agredido pela irresponsabilidade de Deus e todo mundo: da empresa, por razões óbvias; do aeroporto, por nem limpar direito o banheiro; da banca, que nem tinha mais os jornais do dia; do ministro Jobim, de Lula. Eu disse de Deus? D'Ele também, com essa história de livre arbítrio, como se eu estivesse ali, sofrendo, por vontade própria. Se bem que eu é que não quis viajar de ônibus... E ainda tivemos de assistir ao vivo a uma acalorada discussão das aeromoças (você acredita que uma delas só atendeu ao chamado de uma senhora depois de ser chamada de comissária? Naquela altura do campeonato!!) para ver qual delas ia tirar folga no final de semana. E a cara amarrada? Nem o fato de que eram lindas ameniza o que passamos. Ou melhor: eu passei. Tião e Ruimar eram só cara de paisagem... O importante é que tô vivo, independente de eu ser um otimista nato, quando quero. Eu e milhões de brasileiros, é verdade. Mas aproveito para mandar o meu recado para Jobim e Lula. Não sei se falo em nome de mais alguém, em todo caso no meu já está bom. Quero dizer a eles que alguém tem de dar jeito nessa m..., e que, se eles não dão conta de resolver o problema, então "pede pra sair!", "pede pra sair!" À OceanAir, a empresa que nos proporcionou tão inspirados momentos, o quê dizer? Talvez isto baste: quem não tem competência, não se estabeleça! Pra mim, tá decidido: pelos próximos meses, anos, se preciso, até que a crise na aviação brasileira passe de vez, conexão aceitável só as que faço há anos no vôo para São Miguel do Passa Quatro, com as quais já estou perfeitamente habituado: uma no posto de gasolina logo depois da saída de Goiânia, outra lá na frente, depois de Bela Vista. E assim mesmo por uma única razão justificável: abastecer. Entendeu? A-bas-te-cer. Com ou sem aeromoça na aeronave. (Publicado na Tribuna do Planalto em 2.3.2008. Veja AQUI)
25/02/08 - Segunda-feira postado na categoria Poesia Farra de poeta Beija as estrelas, poeta,
Esqueçamos as coisas estúpidas
(Publicado na Tribuna do Planalto em 24.02.08)
25/02/08 - Segunda-feira postado na categoria Conto Ela chegou sorrateiramente, sentou-se ao meu lado e me saudou com um grande abraço nos olhos. Não disse nada. Puxou-me pelo colarinho - apenas com o forte olhar - e me deu o beijo gostoso de adeus que agora existe. Estava nua, bela, exuberante. Enquanto me beijava, ia comendo minha língua com a mesma volúpia da pedra atirada no leito de um lago, logo e ansiosamente, uma paisagem a mais. Anjo pleno de imaginação. O beijo durou até que a pouca luz da noite apareceu abruptamente. Caí na outra ponta do meu corpo, com todo o barulho do mundo e tive vontade de morrer. Eu estava só. Recomeço a andar. A noite esconde a minha sombra e não cala nunca a sua inquietude. Meus passos são anotados no chão, porém ficam para trás. Amarram as ruas desarrumadas para não perdê-los - elas, que nunca obedecem a ordem alguma. Os olhos perdidos procuram nas esquinas, e sob poucas luzes acesas dos postes, uma gente vive, enfim, para, ao menos, que se informem da minha existência. Ora, ora, cadê o beijo de agora há pouco? Que foi feito de mim naquele banco daquele jeito naquela hora? Saio da calçada com raiva, acelero os passos, incentivo a respiração.
(Publicado na Tribuna do Planalto em 24.02.08)
20/02/08 - Quarta-feira postado na categoria Conto Quem não tem o que inventar, inventa uma grande fogueira que nunca se apaga para a praça daquela cidade tão sem tamanho. Também inventa que a fumaça, sumindo no céu, é gente quando estou por perto. Nascido de todos, rosto fino, de mulher espantosa embora homem inenarrável, braços longos, pés que se plantam ao chão que pisam, nariz estreito e boquiaberto sempre; ou mudando a cor dos cabelos, alongando o nariz, estreitando a boca e sorrindo depois de ter chorado. Eis que Indelével é cada morador da cidade, que gosta de ver o que não reconhece, e de ser o que nem se percebe. Conto uma história. Ele está na esquina do açougue tentando escutar o que falamos num fininho. Hora morna, tarde quieta. Conversamos tão baixo, e só para nós quatro, que ele ouve apenas o dia. Está confuso por não nos entender. Espera que falemos mais alto. De repente fugimos cada um para o seu lado, na hora. Ele se assusta, sem saber o que fazer - e não faz nada. Rimos. Começa a brincadeira. Desaparecemos de vez no ar. Enganamos as ruas e os inimigos; os amigos e as pedras; os vivos e enganamos Indelével. Feitos de dissimulação, dissimulamos até mesmo nossa ausência, nesta cidade. Ele vai para a praça nos esperar. Faz desenhos com os olhos, enquanto iniciamos nossa sutil caminhada até ele. Nós, escusos. De árvore em árvore, em todas as ruas. Atrás dos postes de luz. Pelo não ver dos passantes. Precisos. Por que não ser perfeitos? Cada um sentindo a aproximação dos outros três. Indelével não percebe a nossa chegada, e a cada segundo se distrai mais. Por querer? Perfeitos. Agarrados aos meio-fios, às sombras dos ramos, vamos escorregando. Já é noite forte. Um esconde-se atrás do espinho caído próximo a Indelével. Dois mete-se entre as gretas de cimento das calçadas. A praça repleta de praça. Três mistura-se aos muitos raios da lua. Quatro vira-se do avesso para parecer ninguém nem algo, enquanto o vento absorve o nosso cheiro e nos acalma com o seu frescor. Ainda mais próximos. Por um hálito. A máxima perfeição. Que Indelével seja apenas alguém numa praça, desprevenido do mundo. Então partimos ao seu encontro. Diretos sobre ele, que nem pode se assustar, recebe o impacto das quatro cabeças em seu corpo, sobe, estoura no céu e na terra, despedaçado, sem tempo de ter um segundo com a memória de uma vida. Rimos e é fervoroso, tanto prazer. Um por um os habitantes da cidade vão surgindo para a tudo ver de perto. Quando partimos para a Grande Fogueira. Aos poucos o fogo chega aos quatro, alcançando-nos na brisa, fumaça viva solta vida. Espalhados, confundidos com o ar puríssimo da cidade. E num fundo aspirar das pessoas, somos sugados por pulmões misturados aos olhos, às rugas e ao gosto absurdo pela paciência, dos amigos da nossa morte e dos amigos da nossa vida. Mas chega. É hora de interpretar.
(Publicado na Tribuna do Planalto em 17.02.2008)
10/02/08 - Domingo postado na categoria Poesia Poema racional Um poeta
As palavras, como os pássaros, Ser só coração É tempo de vãos humanos,
Dizem por aí Dizem que sou isto.
Poema bélico Assumo que não sei quem sou
(Publicado na Tribuna do Planalto de 10.02.2008 - AQUI)
05/01/08 - Sábado postado na categoria Colaborador Foi uma gritaria dos diabos. Parecia até que a mulher estava à beira de um ataque. Um chilique daqueles não podia ser por puro capricho de dondoca desocupada. Coisa boa não era! Quem não tem medo de cobra? E de polícia? E de Promotor de Justiça? Um ou outro pode até dar uma de corajoso e dizer que não tem, mas muita gente sofre um friozinho na barriga quando dá de testa com uma fera dessas. Assim começa conto do escritor Elson Gonçalves de Oliveira, que vem a ser meu pai. Sim, eu sei. Ele não tem culpa. Elson tem 11 livros publicados. O mais recente foi lançado em dezembro: Ana Paula nos tempos da Palmatória. Para ler o conto, clique AQUI.
01/01/08 - Terça-feira postado na categoria Crônica Em política, o fato também é ficção. Não, a frase não está boa. Sobra o 'também'. Em política, o fato é ficção. Mais ou menos. Porque nem sempre o fato é ficção, embora a diferença entre uma coisa e outra seja muito sutil, mínima, e muitas vezes nem seja verdadeiramente compreensível, porque uma coisa é outra independente da política. Melhor estaria a tirada com o 'também'? Nem tanto. Não tão bem. Mania de também! O fato é fato quando um governador anuncia um pacote de medidas que inegavelmente renega a ordem anterior porque estabelece uma nova sob o pressuposto de que aquela não estava assentada na responsabilidade, ainda que tudo seja continuação de tudo - um tempo depois do outro, entende? É ficção quando um governador anuncia um pacote de medidas e diz que inegavelmente ele não renega a ordem anterior, embora reconheça que estabelece, sim, uma nova a partir do pressuposto de que a anterior era irresponsável, posto que a sua é responsável, como escreve e assina, independente dos tempos em questão, se é que, bem, você me entende. É fato quando uma base de políticos aliados se deteriora em meio à guerra aberta por cargos. Loteamento de governo pode não existir na teoria, mas é da política, quem não sabe disso? É ficção quando vem um desavisado, mais realista que o rei e seus súditos, e garante que a base, em frangalhos, não está brigando, está é brincando, vejam só, e que tudo em contrário é culpa da imprensa. Para os políticos, imprensa é ficção: bobo de quem acredita nela. E nisso, a bem da verdade. É fato quando um prefeito que já foi governador duas vezes afirma reiteradamente que não sabe se será candidato à reeleição este ano, está pensando, em 'intindimento' com seus botões, mas admite disputar o governo em 2010, "se for a vontade de Deus e do povo". (Aliás, redundância: já viu político sem Deus e sem povo?) É ficção quando este mesmo prefeito nega que esteja em campanha mesmo tendo acabado de inaugurar um reles viaduto que, por astúcia marqueteira, transcendeu, transformou-se em monumento, bonito, por sinal, estabelecendo um marco para a cidade e marcando posição política. É fato quando o PT diz que terá candidato próprio à Prefeitura da capital no ano que vem. É ficção pelo mesmo motivo, porque o PT, meu Deus, não se sabe mais se é fato ou ficção, porque, enfim, não é mais aquele. (Não, nada de trocadilhos. O PT 'já era' coisa nenhuma; só está um tanto quanto desnorteado. Isso passa. Não passa?) É fato que os partidecos não gostam de ser chamados de partidecos. É fato também que são, e que estão se assanhando em lançamentos de candidaturas só para ver se negociam mais caro sua adesão a quem oferecer mais. Ou seja: tudo como dantes no quartel de... você sabe. Mais do mesmo. O mais é ficção. É fato que muitos políticos sonham com eleição para prefeito, fazem de conta que não é com eles, retardam o inevitável, que é a campanha, nesta hora travestida de pré-campanha, e que na realidade estão que não se agüentam de vontade de entrar no samba eleitoral muito antes de vir a ser rima de Carnaval - pobre, por sinal. E é ficção que, por obra de pura especulação e uns pontinhos incertos em pesquisas destas horas de nuvens de ocasião, sejam favoritos. O fato é outro. É ficção que um político visite outro, seu adversário, com desculpa de lhe dar um presente, leve a filha assim como que desinteressadamente - merecendo, de fato, reprimenda pública por exploração da pureza infantil (logo a filha, inocente!!), justo o que falta à política -, para poder tirar foto e expor no dia seguinte nos jornais com santidade natalina, e diga que isso é real e isso seja real. Realmente, há quem pense que 'a gente somos bobos'. É fato que um governador, negue ser fotografado com este mesmo político, supostamente seu aliado, e nada fale a respeito com imprensa azul, morena ou marrom, qualquer uma. E ficção que tudo não passe de fumaça (coisa da imprensa, coisa da imprensa!!), e fique o dito pelo não dito, não seja o fato prova de uma relação que, de amistosa, não passa de cada vez mais insustentável ficção. Em política é assim. É o que é. Assim como é fato igualmente que este blog vai tratar tanto dos fatos fatos quanto das ficções da política (goiana, em especial), protagonizados por gente como o governador Alcides Rodrigues (PP), o senador Marconi Perillo (PSDB), o prefeito Iris Rezende (PMDB) e tantos outros atores e artistas do nosso dia-a-dia político. Atores e artistas no bom sentido, claro (seja lá o que isso for), feito os analistas, críticos, articulistas, enfim todos que escrevem, falam, pensam política e sobre os políticos, de fato ficcionistas em potencial, por força do hábito ou da realidade, sejamos justos. De minha parte, confesso: às vezes, nem eu sei o que sou. Nada mais que um ficcionista? Quem sabe. Mas nisto, eu sei, permitam-me dizer, estou bem acompanhado: também (admitam: este está bem, aí!) Shakespeare, ou Hamlet, se preferirem, não sabia se era ou não era, e antes deles Sócrates, aquele, coitado, que confessou que só sabia que nada sabia. Eu não sei. Só sei que é assim. Não quer dizer que tudo aqui será ficção. Não! Quer dizer que será fato quando for fato, e ficção quando for ficção. Simples assim, embora seja razoável lembrar que falar é fácil, escrever é que são elas. E para desanuviar um pouco as coisas, terá ademais este espaço poesia, prosa, a ficção de poetas e escritores, estes seres indescritíveis que refletem tão bem os (e sobre os) fatos concretos da vida. Por um motivo ilustre: precisamos falar principalmente de assuntos variados, porque política não dá futuro a ninguém, a não ser aos políticos e aos corruptos de toda coloração - e isto nem é algo original que se diga. Não se preocupem. Na vida, como em política, tudo se ajeita, para um lado ou para o outro, independentemente do time para o qual você torce. Se não está ajeitado é porque ninguém escreveu sobre isso ainda. E alguém sempre escreve, principalmente se tiver cachê. Então, vamos lá. Para começar: Feliz 2008 a todos! E, creiam: desejo isso de coração. Não, definitivamente não é ficção.
PS.: Quem vem acompanhando o blog, vê logo que ele está de cara nova. Mas chega, depois falamos disso. Por ora, é muito fato para um post só.
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25/02/10
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